Comunicado oficial: rompimento de Brumadinho

Senhores(as),

 

A FENEMI - Federação Nacional de Engenharia Mecânica e Industrial se compadece com as vítimas de mais um lastimável evento de falha de barragem.

A história da engenharia de barragens no Brasil é antiga e sempre buscou por excelência e qualidade, e com ela chegamos ao topo mundial em projeto e construção de barragens.

A construção e operação de uma barragem agrega conhecimentos multidisciplinares, abrangendo grande parte das engenharias, geologia, geotecnia e agronomia, além de outras áreas de formação não técnica, o que torna cada empreendimento único e com um potencial econômico direto e indireto.

O Meio Ambiente sempre é pauta em empreendimentos de barramento, devendo o mesmo ter sua viabilidade estudada, afinal, o bojo desse tipo de empreendimento é de larga amplitude e necessita de tempo de estudo e projeto.

Mas então, onde foi parar nossa competência reconhecida mundialmente? Desaprendemos? De fato, não desaprendemos!

Boa parte dos profissionais que nos levaram ao estrelato mundial ainda continuam atuantes em suas carreiras, mas vejamos: houve um tempo em que os participantes do empreendimento (projetista, construtor e cliente) sentavam à mesa e falavam a mesma língua, com base técnica. Notando os empreendimentos atuais, o que se tem é um cliente que considera a engenharia apenas um mal necessário, desprovido de informações de peso técnico, onde se enxerga apenas prazo e custos.

E com isso as decisões de cunho técnico são tomadas por não-técnicos, em meio a uma exorbitante burocracia, sem mérito em normativos de engenharia.

A carreira técnica no Brasil, inicialmente, foi colocada paralela à carreira administrativa e depois subordinada a essa segunda. É lastimável essa desvalorização de nossa engenharia no Brasil. Essa depreciação se inicia desde a formação do engenheiro, também prejudicada com a ausência de empreendimentos.

Como dito, há de se pautar os efeitos indiretos de grandes empreendimentos. À exemplo das barragens, as equipes são formadas por gerações de profissionais de carreira técnica com o objetivo de transmissão de conhecimento. Ao buscar as grandes obras, é notável a presença de profissionais sêniors, plenos, júniors e estagiários, que completam a cadeia da aprendizagem.

Contudo o que se vê hoje, nas obras, é que raramente se encontram profissionais experientes. Os sem experiência são mais “baratos” e são aprovados pela atual forma de exercício do dispêndio público. Além disso, a falta de trabalho para profissionais de engenharia dificulta a formação profissional.

As medidas “legais” de RDC e pregão achataram os preços, mas também desvalorizaram a engenharia e reduziram drasticamente o tempo de estudo e projeto, trazendo consigo um resultado “aprovado” burocraticamente pelos infindáveis órgãos de controle estatais, mas sem o devido amadurecimento técnico necessário.

O estado muito pode melhorar com isso, aprovando, por exemplo, a PLC 13/2013, que trata de Carreira Técnica de Estado para Engenheiros e Arquitetos e não “analistas”, que há muito tempo devaneia nos corredores de Câmara e Senado sem efetividade.

Lamentavelmente, a taxa atual de insucessos em barragens no Brasil é INACEITÁVEL, e traz evidência de que algo foi significativamente alterado de forma equivocada no processo, quando comparada com o resto do mundo. Durante cerca de 35 anos construímos uma significativa quantidade de barragens e tivemos pouquíssimos problemas, mas na última década a “coisa” se perdeu.

No mundo todo existem inúmeras cidades e instalações a jusante de barragens. Afinal elas não são feitas para romper. No entanto, não existe RISCO ZERO. Existem riscos calculados, existem controles e normativas que minoram a ocorrência desses acidentes.

Contudo as palavras chave para evitar catástrofes como essas são manutenção, que parece ter desaparecido do dicionário do brasileiro, e monitoramento, ainda mais distante. As inspeções de segurança em barragens são prejudicadas pela falta desses dois elementos, que exigem equipes multidisclinares, bem treinadas e experientes.

Afinal, agora de acidente ocorrido, a engenharia nacional dará solução de reconstruir os bens materiais, sem dúvidas de forma mais dispendiosa que se tivessem realizado a devida manutenção e monitoramento. Mas as vidas “inundadas” e os custos sociais, esses são irrestituíveis. Nos resta chorar pela lama derramada.

Afinal tivemos falhas em nossas grandes obras recentes. Além de Brumadinho (Barragem), houve: Mariana (Barragem), Marginal Pinheiros (Viaduto), Eixão de Brasília (Viaduto), Guararapes (Viaduto), Bairro Dionísio Torres (Viaduto).

A FENEMI reitera seu compadecimento, salientando que as ações nesse momento devem ser corretivas, para Brumadinho. Mas para as outras 50 barragens “sem garantia”, as ações devem ser preventivas e preditivas, para a correta manutenção de nossas obras nacionais.

Dessa forma, estaremos garantindo a segurança da sociedade, bem como o gozo dos benefícios diretos e indiretos dos investimentos. E quem sabe conseguiremos promover uma melhor conscientização de todos para que a manutenção seja enxergada como um processo de constante atualização e gestão de nossos ativos, atuando de forma preventiva e progressiva.

 

Atenciosamente,

FENEMI

 

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Geo. Paulo Guimarães [Especialista]

Enga. Tammy Mayara Daltoé Inglez [ABEMEC-DF]

Eng. Gabriel Costa Abreu [ABEMEC-DF]

Eng. Gutemberg Rios [FENEMI]

Eng. Marco Aurélio Cândia Braga [FENEMI]